
Prepare-se para fazer a viagem da sua vida. A Índia é diferente de tudo o que você já viu ou sentiu. Embora seja um batido clichê é impossível não definir essa impressionante nação de 1,2 bilhão de habitantes, dezenas de idiomas e diferentes religiões como uma terra de contrastes. Se estiver preparado, chegou a hora de descobrir seus encantos e mistérios.
Por Toni Simões
Viajar para a Índia definitivamente não é para qualquer um. Marinheiros de primeira viagem então nem pensar. País de contrastes chocantes, vai fazer você amar ou detestar o destino em um primeiro contato. Lá, lixo e luxo se misturam. Miseráveis e milionários dividem o mesmo espaço de forma democrática e tranquila. Prédios modernos e shoppings centers estão lado a lado com antigas fortalezas e bazares medievais.
Homens de turbantes e longas barbas e mulheres cobertas dos pés à cabeça por roupas coloridas convivem com executivos de multinacionais com seus ternos bem cortados e jovens ostentando piercings e telefones celulares de última geração. Mas por que tanta gente sonha com uma viagem à Índia? Você sabia que os Beatles, a mais famosa banda de todos os tempos, há quase 50 anos – entre fevereiro e abril de 1968 -, se refugiaram na longínqua Rishikesh, uma pequena cidade no norte indiano, aos pés do Himalaia e na fronteira com o Nepal? O que teria motivado John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison a enfrentarem as dificuldades da época para chegar ao destino que está a 227 km de Nova Délhi?
A resposta é simples, eles queriamencontrar paz e a espiritualidade. E a história mostra que encontraram, tanto que no período em que ficaram hospedados no “ahsram” – um local para meditação sob o comando do guru Maharishi Mahesh Yogi – eles produziram mais de 30 músicas, sendo que algumas delas integraram o famoso disco “White Álbum”.
Essa retrospectiva sobre a viagem dos Beatles à Índia talvez responda parcialmente a primeira pergunta que fiz no início do texto. Quem viaja para a Índia não está embarcando em mais uma excursão. Está em busca de algo mais. E a terra de Gandhi inspira, instiga e modifica conceitos; provoca paixão e desconfiança. Mas uma coisa é certa: é impossível ficar indiferente à experiência de vivenciar a Índia.
A cultura milenar indiana está intimamente ligada às religiões orientais e o misticismoestá no ar. O cheiro forte de incenso, os animais sagrados e as imagens de divindades estranhas como os deuses Shiva (que tem vários braços) e Ganesha (que tem corpo de homem e cabeça de elefante) deixam claras as diferenças para o mundo ocidental.
A história indiana foi moldada pelos povos que comandaram o país ao longo dos tempos, desde os arianos há milhares de anos até o domínio inglês, que findou em 1948. Hoje, as características étnicas, culturais e religiosas estão visíveis por todas as partes desse exótico país de 1,2 bilhão de habitantes.
NOVA DÉLHI – Caótica e bela
A viagem é longa e o país tem grande dimensão territorial, portanto, vá sem pressa. A porta de entrada é Délhi, a segunda maior e mais importante cidade da Índia – atrás apenas de Mumbai – que engloba a região de Nova Délhi, a caótica e ao mesmo tempo bela capital do país. Nova Délhi é hoje o reflexo dos impérios e dinastias que por ela passaram. Por todas as partes estão os vestígios de um passado impressionante com ruínas monumentais, palácios e templos. Por outro lado, a vida cotidiana é bastante agitada e com ruas repletas de lojas, cafés e restaurantes. Por incrível que pareça, a vida noturna é bem quente para um país tão religioso. Em Connaught Place, o lado moderno da cidade, estão muitas casas noturnas, algumas com pistas de dança com música eletrônica que varam a madrugada.
Prepare-se para se surpreender. Nova Délhi com os seus mais de 16 milhões de habitantes é uma pequena mostra de tudo que irá encontrar pelo país. Moradores de São Paulo não se surpreenderão com a poluição, barulho e o trânsito, que é tão ruim e travado como na capital paulista em dias de manifestações e chuva. Portanto, aqui vai a primeira dica: use como meio de transporte os tuc tuc – também conhecidos como “rickshaw” (riquixá). Eles são baratíssimos e melhor forma para se deslocar pela cidade, apesar do metrô ser moderno e eficiente. Basta mostrar o endereço do hotel ou do local que quer visitar ao condutor. Cada corrida custa 70 rúpias, o equivalente a cerca R$ 2,50, porém combine o preço antes.
Mas prepare-se para viver grandes emoções. Eles passam entre os carros em velocidade, tal como as motos nas avenidas paulistanas. E não raro batem e raspam nos veículos – alguns topo de linha e caríssimos – parados nos congestionamentos.
Aliás, motos são usadas por famílias com até seis pessoas ao mesmo tempo. Impossível? Não, não é. E não se surpreenda se todos pararem para dar passagem a uma vaca. Considerada sagrada na Índia, ai de quem maltratá-las.
Dependendo de quanto tempo passará em Nova Délhi, inclua as seguintes atrações turísticas em seu roteiro de visitas:
JAMA MASJID – Maior mesquita do país, foi construída no século 17 pelo imperador Shah Jahan. Em épocas de festivais recebe até 25 mil fiéis em seu pátio. Não é permitida a entrada de sapatos e do alto do seu mirante é possível ter uma vista privilegiada da cidade.
MAUSOLÉU HUMAYUN’S – Construído, em 1562, em homenagem ao segundo imperador mongol, Humayun, foi a primeira grande construção feita para abrigar cinzas na Índia.
FORTE VERMELHO – Considerado um Patrimônio da Humanidade pela Unesco, sua arquitetura tem influência diversas e no seu interior estão museus que mostram e preservam a história da Índia.
TEMPLO AKSHARDHAM – Reflete a magnitude da arquitetura antiga da Índia. O principal monumento – Vastu Shastra – é uma maravilha. Construído em arenito rosa e mármore branco, tem 141 metros de altura e 234 pilares, além de 20 mil esculturas e estátuas de divindades.
PORTA DA ÍNDIA – No centro da cidade, esse enorme monumento de 42 metros de altura que lembra o Arco do Triunfo, reina soberano. Ele foi erguido para homenagear os soldados indianos que morreram lutando pelo exército britânico durante a I Guerra Mundial. À noite, ganha iluminação dramática no verão o gramado que a circunda fica cheio de gente.
CHANDNI CHOWK – Um dos mercados mais antigos e mais movimentado da cidade, foi construído no século 17 por Shah Jahan e projetado por sua filha Jahan Ara. Está na rua principal da cidade murada – criada em 1650 – de Old Délhi e foi originalmente chamado Shahjahanabad.
QUTAB MINAR – A Torre da Vitória construída em 1193, tem cinco andares distintos. Os três primeiros são feitos de arenito vermelho, enquanto o quarto e o quinto são de mármore e arenito. Ao pé da torre está a Mesquita Quwwat-ul-Islam, a primeira construída na Índia.
TEMPLO DE LÓTUS – O monumento localizado no centro de Nova Délhi é também chamado de Casa de Devoção pelos adeptos do Bahai – religião independente e com suas próprias leis e escrituras sagradas, que não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio.
JANTAR MANTAR – Começou a ser construído em 1724 a mando do imperador Mughal Shah Muhammad e com o objetivo de rever o calendário e tabelas astronômicas, além de prever os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas.
TEMPLO CHHATARPUR – O grandioso complexo é dividido em três partes. O templo principal é dedicado a deusa Durga. O segundo dedicado à deusa Laxmi & Ganesha Senhor. E o terceiro a São Baba Nagpal, fundador do templo. Está localizado no meio de uma grande área gramada decorada por esculturas de pedra e madeira. Reúne muitos devotos durante os meses de setembro e outubro, quando acontece o Festival Dushehra.
TEMPLO DE JAGANNATH – Criado em I860, ganhou, recentemente, um templo muito maior construído sobre a menor estrutura original. Situado no meio do próspero residencial Gayatri Nagar, o templo atrai diariamente centenas de devotos.
Como brasileiro gosta de fazer compras vai adorar os preços baixos praticados nos muitos mercados da cidade. Um dos maiores é o Sarojini Nagar, que lembra muito uma feira. Há de tudo, de joias a estátuas dos deuses indianos. Em Old Delhi, bairro antigo da capital, está o Main Bazaar, um corredor comercial popular que lembra muito a nossa Rua 25 de Março. Outra opção é o Basant Lok Market, no bairro Vasant Vihar. E não deixe de pechinchar muito. De maneira geral os vendedores chegam a pedir até três vezes mais sobre o valor real do produto. Não se acanhe.
FORTES EMOÇÕES – E visões deslumbrantes
Depois de passar dias em Nova Délhi você certamente já estará bem preparado para descobrir outros mistérios da Índia. A melhor maneira para vencer as longas distâncias é via aérea. Se tiver tempo e estiver a fim de economizar, os trens são opções interessantes. Herança do período colonial britânico, a Índia possui uma ampla malha ferroviária. O problema é que pouco foi feito pela manutenção da infraestrutura. Os bilhetes são baratos e os serviços são bem pontuais, além de que é a melhor forma de conhecer as paisagens do país. Há, também, opções de trens luxuosos em serviços especiais. Em todos eles o serviço é primoroso e inclui entradas para atrações, guias e refeições. Agora, se quiser viver emoções fortes, a opção é encarar as estradas indianas, o que pode ser considerado uma verdadeira aventura. Não por causa da qualidade das rodovias, mas pelo que irá encontrar nelas. Ou não encontrar. É o caso da falta de retornos que leva os motoristas a dirigir por muitos e muitos quilômetros até encontrar um. Motoristas sem paciência realizam manobras arriscadas para retornar. Prepare-se também para dividir o asfalto – ou o que sobrou dele – com motos de pequena cilindrada, carros em péssimo estado de conservação, ônibus, caminhões e tratores lentos e supercarregados e até dromedários. E cuidado com os pedestres sem noção que cruzam as rodovias sem nenhuma cerimônia. Se não tiver coragem de enfrentar o volante a saída são os velhos, sujos
e quentes ônibus. Você decide!
Seu roteiro pela Índia tem que incluir, sem dúvida alguma, a cidade de Agra, que abriga duas joias da arquitetura, o Forte Agra e o famoso Taj Mahal, um dos pontos turísticos mais visitados do planeta. Acho que todo mundo conhece a história do Taj Mahal que, inclusive, inspirou uma música de Jorge Benjor. O imponente monumento foi construído pelo príncipe Shan Jahan para simbolizar seu amor pela princesa Mumtaz Mahal. O giro por Agra pode ainda incluir a visita a outros diversos palácios, muralhas e monumentos.
Outro destino importante do país é o Rajastão. Apesar de desértica, a região reserva paisagens maravilhosas e uma das cidades mais fascinantes do mundo, Jaipur. Repleta de palácios, muralhas, fortes e monumentos. É conhecida como a “cidade vermelha” do Rajastão por causa das pedras de tom avermelhado que determina o aspecto pitoresco das construções. Seu principal ponto de interesse é o esplendoroso Forte Amber. Sem dúvida um lugar encantador.
Fora do triângulo Nova Délhi – Agra – Rajastão, a Índia tem muitos outros destinos belos e interessantes. São os casos da antiga colônia portuguesa Goa – que tem lindas praias – e Khajuraho com seus 22 templos repletos esculturas eróticas e misticas. Ou ainda cidades que mudaram de
nome como Kolkata (Calcutá), Chennai (Madras), Mumbai (Bombaim) e Kozhikode (Calicute).
Vale destacar a cidade de Mumbai, que das quatro maiores metrópoles indianas é a mais cosmopolita. Umas das portas de entrada do país e tal como Nova Délhi, o caos cotidiano se contrapõe a importantes amostras da rica cultura indiana, verificada principalmente na arquitetura de seus templos sagrados e na gastronomia.
Mas nenhuma viagem à Índia pode ser considerada completa sem uma visita a Varanasi (antiga Benares) para assistir o sol nascer às margens do Rio Ganges, o mais importante do país. É também a mais sagrada das cidades hindus e onde ainda são praticados alguns rituais seculares dessa religião. Ela está perto de outro local importante, Sarnath. Berço do budismo é a cidade onde, há 2,5 mil anos, o príncipe Sidarta proferiu o seu primeiro sermão ao mundo. Quem ficou curioso para saber mais sobre a passagem dos Beatles pela Índia, saiba que o “ahsram” em que os garotos de Liverpool ficaram hospedados era um local luxuosíssimo com 57 mil metros quadrados. Algo comparado a um sofisticado resort nos dias de hoje. Se está pensando em se hospedar por lá esqueça. Ele está abandonado e fechado. Porém, é uma das principais atrações turísticas da região – clandestinamente é claro. Leva-se cerca de 8 horas para chegar a Rishikesh, onde também está a nascente do Rio Ganges.
FONTE: REVISTA QUAL VIAGEM / Toni Simões
http://www.qualviagem.com.br/india-espiritualidade-divindades-e-algo-mais/